Analfabetismo e medo fazem os idosos considerarem o caixa-eletrônico um “bicho de sete cabeças”

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Aparelho celular também é motivo de receio para os idosos


Atendente Ismabele Cordeiro ajuda senhora a sacar dinheiro

Medo, exclusão social, prejuízo da qualidade de vida. Estes são apenas alguns dos problemas enfrentados pelos milhões de idosos brasileiros que, uma hora ou outra, precisam ficar frente a frente com um caixa-eletrônico ou com um celular. Para quem já passou dos 60 anos, sobram conhecimentos de vida, mas faltam experiências com as novas tecnologias. Porém, iniciativas de familiares e da sociedade estão aí, ensinando os mais velhos a manusear aparelhos eletrônicos ou fazendo pesquisas para compreender melhor as dimensões do problema que, como tal, sempre tem uma solução.

Ninguém melhor do que Ismabele de Lourdes Costa Cordeiro, 27, para falar sobre esse assunto. Há oito anos trabalhando no Banco do Brasil, em Itapetim, no Sertão de Pernambuco, a 430 km do Recife, ela tem como única função ajudar as pessoas que ainda não tem familiaridade com os caixas-eletrônicos a sacar dinheiro. Ismabele gosta do trabalho, mas é enfática ao dar sua opinião sobre a dificuldade que muitos idosos têm para aprender a sacar dinheiro num caixa alimentado por eletricidade. “Eles não querem aprender de jeito nenhum; muitas vezes, quando eles têm algum assunto para tratar com o gerente, é preciso que eu escreva num papelzinho o que eles têm de falar”, revela. A atendente está confiante na longevidade da sua profissão. O medo e a grande taxa de analfabetismo dos idosos são, para ela, a garantia de que a sua função ainda vai durar muitos anos.

Maria Teresa de Alcântara, 72, está aposentada há 15 anos e confirma o que Ismabele diz, porém, acrescenta uma nova informação ao diálogo: “O funcionário do banco nunca tentou me ensinar a tirar o dinheiro, simplesmente faz o trabalho dele”. Analfabeta, Maria conhece somente algumas letras. “Só sei assinar o meu nome até Teresa”, conta. Ela acredita ser a sua idade o principal empecilho para o seu aprendizado. “Não sei usar nem o celular, nem o caixa-eletrônico, só sei contar o dinheiro que recebo; todo mundo lá em casa já tentou me ensinar, mas eu não aprendo, vai ver que é por que eu sou rude demais”, desabafa. “Por isso prefiro deixar do jeito que tá”, completa, entregando os pontos. No entanto, Maria Teresa é cuidadosa, só entrega o seu cartão e a sua senha para o funcionário do banco ou então para um dos seus filhos.

Atendendo cerca de 70 idosos por dia, Sílvia Costa, coordenadora da Casa de Convivência da Terceira Idade de Itapetim e presidente do Conselho Municipal do Idoso, garante não conhecer, em nenhuma das pessoas acompanhadas por ela, a aptidão para sacar dinheiro num caixa-eletrônico ou para fazer ligação em celular. “O idoso não aprende com facilidade a tirar seu próprio dinheiro porque ele não viveu desde cedo a inovação tecnológica”, afirma. Segundo Sílvia, o próprio meio onde o idoso vive, seja ele familiar ou social, não o ajuda a superar esse problema. Sílvia lembra que apesar de muitos netos e filhos viverem na dependência financeira dos avós e pais, respectivamente, nem todos assumem o compromisso de ensinar o aposentado a sacar o seu dinheiro. Ela vê injustiça, também, no fato de existirem instrutores para ensinar os idosos a votar e na inexistência dos mesmos profissionais para ensinar os maiores de 60 anos e, no caso das mulheres da zona rural, de 55 anos, a sacar. “Percebe-se que existe um esforço para melhorar a situação; a prefeitura de Itapetim, por exemplo, colocou uma funcionária no banco para auxiliar quem tem dificuldade, mas isso também acaba acomodando o idoso”, desabafa.


Terezinha fala com parentes pelo celular sem precisar de ajuda para efetuar a ligação

Longe de ser mais uma a entregar os pontos frente às novas tecnologias, Terezinha Alves Queiroz, 76, exibe com orgulho o seu celular. Com a ajuda de um bisneto, Terezinha aprendeu a dominar as funções básicas, como fazer e receber ligações e também escutar a hora. Hoje, ela está tão apegada ao aparelho, que o considera mesmo como um membro da família, tão indispensável quanto um remédio em tempos de doença. “O celular é para mim como uma criança, que serve para fazer os meus mandados, e até melhor ainda, porque não dá trabalho”, brinca. “Ele também é um companheiro que me faz se sentir menos só”, revela. Terezinha se sente bem mais confiante para encarar outros aparelhos. Na fila do banco, Terezinha disse não demorar. “Logo me atendem quando chego ao banco. Por conta da minha idade, sou vista como incapaz de efetuar o saque, dificultando o meu contato com a máquina”, ressaltou. “Tenho certeza que se for preciso tirar dinheiro no caixa-eletrônico, eu tiro sem dificuldade nenhuma”, afirma com convicção.

Por Felizardo Neto e Jean Philippe | Fotos: Jean Philippe

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